O que é mediação

A “mediação escolar” é uma nova prática e, portanto, ainda não conta com bibliografia que ajude a definir seus parâmetros e objetivos norteadores. O conceito de mediação vem sendo construído a partir da experiência, de reflexões e discussões do grupo de trabalho EMI. Dessa forma, temos delineado certos valores e modos de funcionar do mediador, que acreditamos potencializar um modo de inclusão que aposta na diversidade e na singularidade de cada sujeito.

O mediador escolar surge, nas escolas particulares do Rio de Janeiro, devido ao crescimento das chamadas “crianças em situação de inclusão”. Com isso, as escolas se veem às voltas com uma nova demanda: Como incluir esses “novos” alunos? No processo de construção dessa resposta, o “mediador” aparece como um possível instrumento, mas logo se torna imprescindível nas salas de aula cariocas e o número de profissionais exercendo essa prática cresce rapidamente.

A necessidade do mediador escolar é, normalmente, apontada pela escola como condição para que o “aluno em situação de inclusão” possa frequentar o espaço escolar. Este aluno é apresentado como uma criança/adolescente com algum transtorno, deficiência ou sintoma que dificulta a sua experiência escolar, se comparada aos parâmetros ditos “normais”.  A escola entende que as demandas desse aluno vão para além das possibilidades dela, e por isso leva aos pais a necessidade de um profissional que acompanhe a criança/ adolescente na escola. A família, na maioria das vezes, fica responsável por arcar financeiramente com esse profissional.

O primeiro e mais fundamental objetivo do mediador é ajudar o aluno a criar suas próprias ferramentas para usufruir do espaço escolar de forma independente, tornando sua vida escolar mais potente e autônoma. Uma vez que esse objetivo seja atingido, acreditamos que o mediador deixa de se fazer necessário e o aluno pode continuar seu aprendizado junto com professores e amigos.

Hoje nas escolas, cabe ao mediador, junto com o(s) professor(es), a adaptação do material que será usado pelo aluno para um formato que seja acessível; a adaptação de tarefas feitas em sala de aula e de testes e provas; a saída desses alunos de sala de aula para realizar alguma atividade que não possa ser realizada na sala junto aos outros colegas; atuar, muitas vezes, como tradutor da língua da escola; estar sempre conversando com coordenadores e professores sobre os melhores caminhos para esse aluno, de forma a consolidar uma parceria mediador-escola; entre outros.

Nesse contexto, o mediador atua como uma ponte entre a criança/adolescente e suas relações – professores, colegas, coordenação e o próprio aprender. O principal valor que norteia este trabalho é a autonomia, portanto, busca-se encurtar essa ponte cada vez mais, ocupando assim, um lugar de passagem e devolvendo à escola e ao professor o papel de gerir e garantir uma vivência escolar completa e de qualidade para aquele aluno.

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Acreditamos que a inclusão desses alunos só será possível com a participação de todos os atores que ocupam o espaço escolar, portanto, a parceria com a escola é de suma importância para o trabalho do mediador. Este não deve ocupar apenas o lugar ao lado do “aluno de inclusão”, mas também precisa caminhar pela instituição, produzindo indagações e fazendo vibrar a estrutura rígida da escola. Assim, propicia-se transformações que não atendem somente ao aluno de inclusão, mas qualquer outro inserido no contexto escolar. Como diz Marcondes:

“(…) a inclusão não se dá incluindo os corpos das crianças nas classes regulares. A inclusão se dá quando se devolve ao coletivo aquilo que foi individualizado no corpo do sujeito”. (MARCONDES, 2004, p.2)

Partindo desse norte, cabe ao mediador, em parceria com a escola, garantir que esse aluno aprenda, participe das atividades de sala de aula e seja acolhido pelos colegas e professores, perpetuando a ideia de que para incluir é preciso mover o coletivo. Esse processo demanda trabalho, como mudanças na logística da escola, no tempo e no espaço, no currículo e acima de tudo nas relações. É isso que temos levado para nossas práticas dentro das instituições. Temos experienciado o fortalecimento dessas crianças ditas de inclusão, enfatizando a importância desse olhar mais próximo direcionado para as potencialidades, que muitas vezes ficam escondidas atrás de diagnósticos e funcionamentos que não se encaixam no formato da escola.

A prática de mediação que temos operado nas escolas vem produzindo incômodos e ruídos; e essa é nossa maior conquista, uma atuação que propicia questionamentos e abre um campo de reflexão. Enquanto estivermos produzindo tensões que instiguem mudanças, mesmo que pequenas, garantimos uma prática ética e potente.

Tendo como valor máximo do nosso trabalho a crença na potencialidade de cada criança, procuramos auxiliá-la a encontrar maneiras que propiciem o desenvolvimento de suas capacidades e habilidades, mesmo que por um período seja necessário que nos emprestemos como “suporte” para assegurá-la de sua capacidade enquanto sujeito. Uma vez munida de ferramentas, e no lugar de sujeito, a criança tem a possibilidade de seguir em frente de forma autônoma e potente, tornando-se  assim, autora de sua própria história.