No último sábado, aconteceu a 2a jornada do EMI. Foi um encontro bacana com apresentações de trabalho que muito enriquecem a prática de mediação. Agradecemos enormemente a dedicação e a presença de todos. 

Um dos trabalhos, apresentado por Bia Butter e Ligia Neves, trouxe uma metáfora interessante para pensarmos a mediação. 

Apresentamos a reflexão na íntegra: 

Considerando todos os desafios que a prática de mediação escolar apresenta, e na tentativa de refletir sobre a atuação do mediador nas escolas regulares junto aos alunos ditos de inclusão e a toda a paisagem escolar contemporânea, que é marcada por uma lógica homogeneizante, nos inspiramos em Denise Bernuzzi de Sant’Anna, que nos traz a ideia da relação do surfista com o mar, atentando às peculiaridades da própria ação de surfar, retirada do livro Corpos de Passagem: ensaios sobre a subjetividade contemporânea / São Paulo: Estação liberdade, 2001:

“O exemplo do surfe é neste caso ilustrativo sobre um encontro entre o mar e o surfista, no qual o objetivo a ser atingido é a ação de surfar: a meta final coincide com o processo. Por isso, a relação entre o surfista e o mar tende a ser menos a de um domínio de um sobre o outro e mais a de uma composição de dois conjuntos de forças heterogêneas. Poderíamos até mesmo dizer que, em diversos momentos de sua prática, o surfista surfa com o mar, sem tentar apoderar-se dele, e sem por ele ser tragado ou anulado. Surfar implica então estar com mar, com a prancha, com o vento, compondo os gestos com o meio que o cerca, num processo de afinada seleção. No lugar de se apoderar do meio, de se agarrar a ele ou de se submeter a seus movimentos, para surfar é preciso aprender a estar com o meio.

Para tanto, o surfista ao surfar é ação, pois ele está totalmente presente nessa ação, completamente atento às especificidades de seu encontro com o mar. Fora dali, não sobrou nenhum resíduo dele para observar. A ação de surfar coincide com sua percepção. Por isso, para o surfista, cada onda é, de fato, uma onda diferente da seguinte. A habilidade do surfista, como a de um homem que ama a matéria com a qual age, “não é o exercício de um despotismo violento”¹³. A ação de surfar pode, assim, ser bela, não necessariamente porque se assemelha a alguma imagem do surfe ideal, mas porque se insere de tal modo na paisagem real de um momento, que cada parte do corpo do surfista e de sua prancha vai expressá-la e mesmo potencializá-la. Ele é belo porque prolonga a beleza do mundo em que habita. De modo que, ao contemplá-lo, nossos olhos também são levados a surfar por toda a extensão da paisagem.”

 

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