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“Como fazer esse trabalho mudou sua visão de mundo?” – Minha primeira escuta foi de descaso, a pergunta me pareceu um clichê que não fazia sentido naquele contexto. Estávamos falando numa mesa da Semana de Psicologia da UFF, sobre o tema da Inclusão e Mediação Escolar. Ligia, ao meu lado, tomou a palavra, e me surpreendi com ela querer dar uma resposta, e ter o que dizer. Enquanto ela falava, me senti impelida a falar também. Eu aprendi muito com esse trabalho, mas o que mesmo? Não era a convivência com a diferença, com a deficiência, já que cresci com ela em casa. Hesitei, e outra pessoa pegou a palavra, já querendo mudar de assunto. Pedi para voltar. Pude, então, dizer uma das coisas que mudou me mim com esse trabalho – a possibilidade de aprender com essas pessoas; o quanto descobri e aprendi com os meninos que acompanhei na escola. É muito bonito o discurso de que todos aprendem com todos. Mas é diferente viver essa experiência na pele. Essas escritas são a afirmação dessa mudança minha no mundo. Escrevo sobre o que aprendi com eles nesses anos todos.”

A  mediação escolar vem se consolidando como a  principal prática de inclusão nas escolas. E é sobre a prática do mediador que vamos falar em nossas escritas – Qual o trabalho do mediador escolar? Quem é esse profissional? O que ele produz na escola? Queremos dividir com vocês nossos questionamentos, ideias, perguntas e conquistas. Também queremos falar sobre diferença, inclusão, aprendizagens, conteúdos curriculares e seus materiais didáticos. Temas que compõe o cenário da inclusão escolar, e atravessam a prática do mediador, assim como de todos os atores que participam dessa empreitada – coordenadores, pais, familiares, professores. Queremos construir com vocês algumas pistas que nos ajudem a pensar o trabalho do mediador, assim como os desafios da inclusão.

O dicionário Michaelis define o verbo mediar, entre outras possibilidades, como: “2 Ficar no meio de dois pontos, no espaço, ou de duas épocas, no tempo (…).; Mediação: 5 Contrato especial pelo qual uma pessoa, mediante remuneração, se incumbe de empregar o seu trabalho ou diligência para obter que duas ou mais pessoas, interessadas num determinado negócio, se aproximem com o fim de o realizar; E mediador: 1 Árbitro.”

Com alguns desses significados podemos compor, e outros nos incomodam um tanto. A ideia de ser uma pessoa que fica no meio rendeu boas conversas nos encontros dos grupos sobre mediação do projeto EMI. Ficaríamos no meio entre quem e quem? Ou entre o que e quem? Pensamos em pares como escola e aluno, aluno e conteúdo e talvez também aluno e seus colegas. Depois paramos para pensar se ficar no meio era uma ação que podia definir nosso trabalho. Em algumas situações talvez fiquemos no meio, se entendermos esse “meio” como um espaço entre que poderíamos habitar por um período de tempo; e nesse lugar buscar aproximar duas ou mais partes. Essa ideia também se conecta à definição de mediação como aproximar duas partes com interesses semelhantes. Essa última coloca em cena o problema dos interesses: eles de fato convergem? Por exemplo, Interessa a escola estar perto do aluno em situação de inclusão?  Por fim, a ideia do mediador ser um árbitro, ou seja, decidir o que vale e o que não vale é extremamente delicada, e acho que não nos interessa se conectar com ela.

No projeto EMI criamos outra ideia para mediação, associamos à ponte: um instrumento de sustentação de encontros possíveis – aluno e escola; aluno e conhecimento; aluno e colega. Porém um lugar de passagem, no qual bons encontros possam acontecer e a ponte possa ser atravessada.

Assim essas escritas tem a ambição de interferir em uma situação concreta que é esse lugar do mediador, como ele contribui para a inclusão escolar e que outros fios ele faz colocar em cena que nos fazem pensar.

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