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Temos esbarrado com a temática da agressividade no cotidiano de nosso trabalho – alunos agressivos com seus pares e com os adultos na escola. Paralelamente, vivemos um cenário onde a medicalização da vida torna-se um imperativo que põe de joelhos muitos campos de saberes, inclusive o da educação. Assim, nosso desafio é pensar a agressividade que vem se manifestando no cenário escolar sem aceitar a tendência de catalogá-la em transtornos que, muitas vezes, reduzem uma expressão complexa a um único par “diagnóstico-remédio”. Para além disso, como pensar e intervir de modo ético nesse contexto que implica a todos nós?

Certamente, estamos tratando de uma temática extensa e delicada e, portanto, não pretendemos esgotá-la. Queremos apenas nos servir da inquietação e angústia que ela nos causa para disparar algumas questões, recusando toda tentativa de simplificação desta expressão.

Temos percebido tentativas de apaziguar qualquer movimento de perturbação no espaço escolar que se apresenta supostamente uniforme. Muitas vezes essas tentativas se dão através do controle dos sintomas no corpo do aluno, sem que haja uma escuta honesta aos elementos contidos dentro dessa manifestação.

Se queremos fugir dessa individualização do problema, o que fazer? Não temos respostas, é verdade. Mas uma coisa nos interessa afirmar: um aluno com um carimbo/diagnóstico, carrega sozinho no seu corpo todo o peso de um problema coletivo. É como um bolo pronto; quando olhamos pra ele, ele nos comunica uma unidade e não aparenta, num primeiro olhar, ser composto por tantos ingredientes.

O que nos comunica essa agressividade? Talvez não se trate de perguntar – esse problema é de quem? – mas de indagar quais elementos forjam a agressividade como forma privilegiada de manifestação de um incômodo sentido por alguns alunos. E que outras formas de agressividade, que não só a do aluno, estão habitando o espaço escolar?

Nossa vivência nas escolas tem nos trazido muitos incômodos, angústias e sobretudo perguntas: que caminho seguir? Afastar o aluno da convivência escolar? Mantê-lo? Brigar? Acolher? Retirar o aluno da sala? Alternar momentos com o grupo e sem o grupo? Negociar? Diminuir o tempo que ele fica na escola?

Nos perguntamos o que será que esse aluno está querendo nos dizer sobre as práticas que temos produzido. Poderia ser a agressividade porta-voz de algo que não está funcionando? Como afirmar a responsabilidade de todos frente ao sofrimento que ele nos comunica? Acreditamos que a agressividade se produz enquanto processo, no encontro entre aquele aluno e aquele espaço (e outros espaços) e não num corpo individual.

Ocupando o lugar de mediadores, temos indagado qual é o nosso papel frente a esses desafios. Nesse momento, sabemos que não somos capazes de lidar com essas questões sozinhos. Entendemos também que é pela via do afeto, do carinho, que temos alguma chance de estar com os alunos; e podemos produzir encontros que não sejam pautados apenas pelo “não”, pois corremos o risco de também sermos agressivos. Apostar em dizer mais “sim”, no brincar, na escuta atenta e na flexibilidade pode ser uma alternativa. Temos nos deparado também com nossos limites. Os limites dos nossos corpos enquanto mediadores; até onde conseguimos intervir e quando precisamos nos retirar e abrir espaço para outras pessoas ocuparem esse lugar.

A lógica da urgência não deixa tempo nem espaço para lançarmos outros olhares sobre os incômodos que aparecem na escola, e estamos perdendo a capacidade de interrogar e estranhar o que está bem embaixo de nossos narizes. Trata-se de algo muito complexo e urge que possamos inventar e construir novos modos de enfrentar esse desafio para que não fiquemos somente no lugar de denunciar ou silenciar.

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