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Crianças em situação de inclusão trazem consigo tantas pluralidades de funcionamentos que produzem verdadeiras revoluções cotidianas. Elas nos desafiam a repensar as estruturas e funções já dadas para as coisas existentes, impedindo que se conservem sempre da mesma forma.

Ao serem elas mesmas uma variação de funcionamentos, produzem o alargamento na concepção do que é ou não possível. Como efeito, um movimento de expansão se espalha nas escolas no encontro com a diferença.

O aluno João (nome fictício), de 5 anos, tem dificuldades motoras. Correr, para ele, é uma experiência diferente do que é para outras crianças. Certa vez, um amigo de João foi flagrado brincando de pique com ele de um modo diferente. Corria atrás dele devagar para que João também pudesse experimentar o lugar de ser pego. E João, empolgado, em seguida, corria atrás dele para pegá-lo, em seu próprio ritmo. Os dois se divertiam muito, inaugurando um universo próprio, dotado de outras regras, ritmos e acordos, num nítido movimento não de aceitação da diferença, mas sim de tornar-se diferente. Essa modalidade de brincadeira foi construída por eles, sem que nenhum adulto tivesse ali feito intervenção.

Deparar-se com tal situação, para nós mediadores, é uma experiência vitalizante. Isso porque presenciamos acontecimentos alegres e criativos que se produzem e enriquecem o universo escolar. Novos sentidos são confeccionados através das misturas de funcionamentos diferentes.

Ao presenciarmos a mistura das diferenças, que fazem borrar as fronteiras entre o normal e o anormal, o certo e o errado, temos a experiência de que as escolas “regulares” se beneficiam no encontro com a situação de “inclusão”. E assim, a escola se renova, se repensa, se reformula, fazendo caber nela mais alunos; torna-se um espaço mais plural. O poeta Manoel de Barros nos dá pistas disto afirmando que precisamos “perder a inteligência das coisas para vê-las”.

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