COMO PRODUZIR AULAS MAIS INCLUSIVAS?

Na 5ª feira dia 12/11/15, promovemos uma palestra que se propôs a pensar com o público como produzir aulas mais inclusivas. Tentamos apontar que caminhos temos percorrido ao longo desses quase 4 anos de existência do projeto EMI.

O cerne da nossa atuação não é uma especialidade que de tanto repetirmos criou uma forma padronizada de fazer, mas bem na contramão desta direção. Nos propomos um “fazer artesanatos”; ou seja, construir esferas possíveis de habitar para aquele aglomerado de características singulares que é o aluno dentro de outro aglomerado de características que é a escola. A prática da inclusão se dá necessariamente no encontro entre escola e alunos, norteado por algumas direções de trabalho comum. Tudo, aliás, que temos pensado, e as leituras que tem nos ajudado, nos faz caminhar nessa direção.

Durante um tempo, buscamos modificar o funcionamento do aluno para que ele pudesse estar na escola. Hoje, o foco é nas estratégias e funcionamentos da escola; é a estrutura escolar, o ensinar, que demanda modificações para que caibam mais pessoas. Entendemos que a construção de espaços escolares mais inclusivos se dá num processo, ou seja, não tem manual e não acontece da noite para o dia. Portanto, apostamos nas pequenas modificações do fazer cotidiano que produzem rachaduras e deixam escapar outras formas de aprender e outras formas de ensinar.

Durante a palestra lançamos mão de alguns conceitos que tem sido imprescindíveis para o nosso fazer: inclusão é afirmar a diferença como inerente às relações, e que é responsabilidade do coletivo lidar com as dificuldades que surgem dos encontros na escola; na inclusão não nos cabe mudar o outro, e sim nos disponibilizarmos para produzir uma mudança em nós, a partir de uma abertura para o diálogo com a diferença, de não etiquetar o outro como incapaz apenas porque o modo dele de fazer não é igual ao nosso. O aluno em situação de inclusão não é uma pessoa que nasceu com um déficit, e sim um aluno com características singulares que, no contexto escolar em que está inserido, tem suas aprendizagens dificultadas.

Diante desses entendimentos, nos lançamos a pensar novos mediadores de aprendizagem que possam possibilitar o desenvolvimento desses alunos na escola. Os alunos precisam contar com o apoio de diversos profissionais – professor, coordenador, inspetor -, com seus colegas e, caso seja necessário, um mediador escolar. Junto com esses mediadores humanos, precisamos agregar os não–humanos, objetos que facilitam o aprender e as relações na escola.

Algumas estratégias que temos experimentado tem dados ótimos resultados, como o planejamento e a flexibilização curricular. Não é possível fazer inclusão sem termos objetivos claros sobre o que queremos que esse aluno aprenda e experimente na escola, e o planejamento de como queremos executar esse currículo singular mostra-se igualmente importante. Em seguida, é preciso pensar e construir ferramentas para colocar em prática os planejamentos traçados: adaptação do material didático, o uso de rotinas com imagens para ajudar na organização, materiais de apoio como jogos e material concreto, saídas de sala pré-estabelecidas, materiais com textura, agenda adaptada, entre outras. Essas ferramentas são criadas a partir das dificuldades que vamos encontrando com cada aluno, podendo ser utilizada para alunos com dificuldades semelhantes. Ou seja, falamos sobre a construção de um inventário de recursos produzidos no encontro com a diferença, que entendemos que sempre pode se ampliar, se nos debruçarmos atentamente às pistas que os alunos nos dão

Entendemos que para avançar com a inclusão escolar é preciso mobilizar quem está na escola – professores, coordenadores, educadores em geral e, claro, os próprios alunos. Ouvir e ser ouvido em relações de composição. E pra isso, precisamos exercitar uma escuta mais sensível. O primeiro passo nos parece ser o de abandonar o lugar de saber – que muitas vezes não dá conta da diferença, e a coloca necessariamente num lugar de fracasso – e se sentir seguro para dizer que não sabemos. E não sabemos porque não se pode saber algo antes que se conheça – no caso, o aluno -, e aí surge a ideia de fazer com. Fazer com o aluno, com sua singularidade, inquietações, histórias de vida. E fazer com os objetos, fazer com o espaço: se agenciar e produzir relações de fato construídas. Assumir que os alunos, com seus funcionamentos variados, podem nos indicar caminhos para construir uma escola mais rica, é dissolver os lugares prontos de saber, para em seguida nos aventurarmos a trilhar percursos mais variados e acessar na diferença novas possibilidades de fazer.

O espaço proposto nesse encontro se faz na urgência de trocarmos e podermos fazer novas conexões com todos que estão engajados na luta pela inclusão. Foi um primeiro convite para estarmos juntos, fazendo e pensando juntos. É fundamental que possamos construir espaços coletivos que permitam a circulação de experiências, dificuldades e conquistas de cada um. Foi muito bom estar com todos vocês naquele noite, e esperamos nos encontrar muitas vezes mais em 2016!

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Como a situação de “inclusão” beneficia a escola “regular”

Crianças em situação de inclusão trazem consigo tantas pluralidades de funcionamentos que produzem verdadeiras revoluções cotidianas. Elas nos desafiam a repensar as estruturas e funções já dadas para as coisas existentes, impedindo que se conservem sempre da mesma forma.

Ao serem elas mesmas uma variação de funcionamentos, produzem o alargamento na concepção do que é ou não possível. Como efeito, um movimento de expansão se espalha nas escolas no encontro com a diferença.

O aluno João (nome fictício), de 5 anos, tem dificuldades motoras. Correr, para ele, é uma experiência diferente do que é para outras crianças. Certa vez, um amigo de João foi flagrado brincando de pique com ele de um modo diferente. Corria atrás dele devagar para que João também pudesse experimentar o lugar de ser pego. E João, empolgado, em seguida, corria atrás dele para pegá-lo, em seu próprio ritmo. Os dois se divertiam muito, inaugurando um universo próprio, dotado de outras regras, ritmos e acordos, num nítido movimento não de aceitação da diferença, mas sim de tornar-se diferente. Essa modalidade de brincadeira foi construída por eles, sem que nenhum adulto tivesse ali feito intervenção.

Deparar-se com tal situação, para nós mediadores, é uma experiência vitalizante. Isso porque presenciamos acontecimentos alegres e criativos que se produzem e enriquecem o universo escolar. Novos sentidos são confeccionados através das misturas de funcionamentos diferentes.

Ao presenciarmos a mistura das diferenças, que fazem borrar as fronteiras entre o normal e o anormal, o certo e o errado, temos a experiência de que as escolas “regulares” se beneficiam no encontro com a situação de “inclusão”. E assim, a escola se renova, se repensa, se reformula, fazendo caber nela mais alunos; torna-se um espaço mais plural. O poeta Manoel de Barros nos dá pistas disto afirmando que precisamos “perder a inteligência das coisas para vê-las”.

O material como mediador da aprendizagem

A experiência de mediação vem nos mostrando como a adaptação de material e a produção de material de apoio é importante para auxiliar nosso trabalho com os alunos. Entendemos que esses materiais podem se tornar importantes mediadores.

As adaptações se dão a partir de um material produzido pelo professor (provas, testes, fichas, apostilas, atividades e livros), no qual fazemos alterações importantes para o acesso do aluno ao conhecimento. Já os matérias de apoio só entram em cena quando avaliamos, junto com a escola, que as atividades oferecidas não estão dando conta do aprendizado do aluno.

Produzir material adaptado ou de apoio só faz sentido porque partimos da premissa de que todas as pessoas são capazes de aprender. Acreditamos que nem todas as pessoas aprendem da mesma forma e, por isso, precisamos criar outras formas, outros materiais, outros mediadores na relação com o aprendizado.

Algumas perguntas tem guiado nossas ideias com relação a adaptação de material: Quando um material deve ser adaptado e quais adaptações são necessárias? Quem faz a adaptação? Quem decide o que e como adaptar?

Produzir materiais adaptados ou de apoio não é uma tarefa fácil. O principal objetivo da adaptação é permitir que o aluno se relacione de forma mais autônoma com as atividades – provas, testes, apostilas, fichas, livro, exercícios, brincadeiras. Nosso objetivo é que o aluno que acompanhamos (em situação de inclusão) possa estar inserido nas atividades da turma, respeitando suas possibilidades. Dessa forma, a adaptação precisa estar em sintonia com o planejamento dos professores, mantendo, sempre que possível, o mesmo tema que está sendo discutido em sala.

Essa é uma tarefa extremamente delicada, para a qual buscamos o apoio da escola. Há conteúdos que serão apresentados, outros não, e há os que passarão por alterações ou simplificações. Apostamos que o professor saberá dizer melhor o que é importante naquele currículo, uma vez que ele entende melhor da sua matéria e das formas de ensiná-la. Nós, mediadores, por estarmos muito próximos ao aluno podemos ajudar e pensar, junto com a equipe da escola, quais caminhos seguir em seu aprendizado.

No processo de produção dos materiais outras questões se apresentam: O que quero trabalhar ao produzir esse material? Quais as dúvidas do aluno em relação ao conteúdo que será apresentado? Podemos elencar algumas estratégias que criamos para a adaptação de materiais: mexer na apresentação da atividade, simplificar a linguagem dos enunciados, colocar imagens ou textos de apoio, mudar a forma de resposta colocando opções, diminuir a quantidade de questões, e quando necessário substituir os conteúdos não selecionados para aquele aluno por outros.

Mas por onde começar? Talvez o primeiro passo seja conhecer o aluno – quais são seus interesses? Suas dificuldades? Suas facilidades?

Somente a partir disso podemos começar as nos arriscar a criar materiais ou adaptações. Esse é sempre um movimento de tentativas, permeados por erros e acertos. Nossas tentativas vão ficando mais precisas a partir do que o aluno vai nos mostrando – como ele lida com o material, como ele aprende, quais tentativas funcionam melhor para ele, e quais não servem.

Ao nos deparamos com aquilo que é, supostamente, um obstáculo à aprendizagem, fazemos contato com novas formas de apreender o mundo. Isso nos abre para pensar a própria concepção de ensino dentro da escola, que muitas vezes demanda a todos os alunos que aprendam da mesma forma e no mesmo tempo. Portanto, assinalamos a grande importância da escuta do outro para a construção de relações de ensino-aprendizagem mais plurais, afirmando a diferença como forma de estar no mundo.