Trabalhando com a diversidade. 

 

“Introduzir uma criança nas instituições, na sociedade e na cultura como “aquele Down, é priorizar o registro orgânico, em detrimento de sua expressão subjetiva, amputando sua singularidade. É promover sua alienação a uma concepção fixa, tomada como sua verdade, é torna-la débil. É debilita-la das potencialidades de ruptura e expressão de sua diferença. Por tudo isso insistimos na importância de não priorizarmos o diagnóstico médico para o planejamento de nossas práticas.” (Senra, Mello, Lima, Amaral, Pilar)

Em janeiro, com muita felicidade, fizemos as primeiras oficinas de artes mediadas do EMI. Foi uma feliz experiência. Nessas oficinas, pudemos promover encontros com as artes em um espaço de experiência coletiva através de diferentes linguagens. A proposta principal era brincar junto e construir produtos desse encontro de forma prazerosa. O espaço possibilitou a criação de novos laços entre as crianças que participaram e também entre nós, adultos mediadores, e elas.

No momento da inscrição, enviamos para as famílias interessadas uma ficha pedindo que nos contassem um pouco sobre seus filhos, falassem de suas potencialidades, dificuldades e interesses; e o que mais achassem importante dividir conosco. Foi uma boa surpresa quando essa fichas retornaram sem que o foco da escrita estivesse em um diagnóstico que eles pudessem ter. Recebemos relatos sobre quem eram esses meninos e meninas, com indicações sobre o que gostavam de fazer, no que tinham dificuldades e facilidades. Pistas que nos ajudaram a pensar as oficinas, pois para preparar as atividades pouco importava o diagnóstico, queríamos saber um pouco sobre o sujeito com quem iríamos nos encontrar para que pudéssemos pensar propostas em sintonia com as singularidades de cada um deles.

Como é característico do que entendemos como um espaço inclusivo, pudemos oferecer atividades diversificadas, e formas diferentes de apresentar ou realizar cada brincadeira. Obviamente, nenhuma das crianças presentes fez a mesma coisa da mesma forma, mas isso é que foi genial e é essa expectativa que temos para o funcionamento escolar: um espaço onde todos podem trabalhar em cima de um mesmo tema, por vezes com o mesmo material ou na mesma atividade, mas não necessariamente da mesma forma ou no mesmo tempo.

O ano começou, ainda não sabemos como a LBI irá repercutir nas escolas brasileiras, e nos demais espaços coletivos. Mas precisamos registrar aqui que a nossa experiência de janeiro nos mostrou como cada atividade, cada material comporta em si inúmeras possibilidades de trabalho. O quanto a diversidade é rica e como ela nos convoca a oferecer, em um ambiente coletivo, diferentes formas de acessar as atividades propostas, e a necessidade das relações se darem com respeito e parceria. O caminho? Dar espaço para a diferença.

Que venham outras oportunidades!

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“Inclusão Escolar: ferramentas e estratégias possíveis”

“O trabalho de inclusão escolar não pode ser realizado sem a inclusão dos professores, já que eles são uma das ferramentas mais importantes na sustentação desse lugar social que se pretende oferecer à criança (…): o lugar de aluno.” (BASTOS, KUPFER, 2010)

Acompanhamos hoje o fortalecimento do conceito de educação inclusiva e, consequentemente, as demandas que esta nova forma de pensar o espaço escolar apresenta para os educadores. A cada ano, mais crianças e adolescentes que apresentam necessidades educativas especiais ocupam as salas de aula, e junto a elas, adentra a escola novos e complexos desafios que instigam e angustiam professores, coordenadores, pais, enfim, todos os sujeitos que participam da experiência escolar. Como enfrentar essa nova realidade? Essa é a pergunta que se faz em todos os espaços da escola, principalmente nas salas de aula.

Diante desse novo desafio, se faz necessário a reflexão e criação de estratégias que auxiliem os atores da instituição escolar no enfrentamento destes nova realidade. Buscando contribuir para as discussões dentro do campo da inclusão, o projeto EMI – Encontro de Mediação e Inclusão, está organizando uma palestra intitulada “Inclusão Escolar: estratégias e ferramentas possíveis”.

Data: 12/11
Horários: às 19h30
Local: Centro de Convenções do Edifício Argentina, Praia de Botafogo, 228/2º andar

Valor: 20 reais (pagamento no local)

Inscrição pelo email: contato@eminclusao.com.br
São apenas 50 vagas!

“O projeto EMI – Encontros de Mediação e Inclusão – convida para uma conversa sobre como construir salas de aulas e escolas mais inclusivas. Sem pretensão de oferecer uma manual pronto, iremos discutir algumas ferramentas e estratégias que podem auxiliar no processo de modificação do ambiente escolar a fim de que a diferença seja parte fundamental do funcionamento coletivo.

Esperamos vocês lá!
Equipe EMI”

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Qual a formação para trabalhar com inclusão escolar?

Trabalhar no campo da inclusão escolar significa sustentar um não-saber, ou seja, suportar o encontro com o imprevisível que habita a escola. Se entendemos que a inclusão abarca a diversidade de formas de aprender e de ser, qual seria a formação necessária para trabalhar com a multiplicidade? Para trabalhar com o que não conhecemos?

Parece-nos impossível garantir a qualidade de qualquer profissional. A formação universitária tampouco nos certifica dessa qualidade, seja a pedagogia, a psicologia, ou outra área do saber acadêmico. No entanto, famílias se vêem às voltas com a necessidade de escolher uma pessoa para acompanhar seu filho, a escola enfrenta o desafio de contratar professores e outros profissionais que possam atuar na inclusão dos alunos; e profissionais de diferentes áreas precisam se perguntar se querem, e têm disponibilidade para estar sendo um agente de inclusão. Ao longo de nossa experiência de trabalho fomos elaborando algumas pistas que nos ajudam a refletir sobre os requisitos e capacidade para atuar na inclusão dos alunos em escolas.

Talvez a primeira prerrogativa seja um entendimento do que é inclusão. O ato de colocar um aluno dentro da escola e pedir que ele se adapte a ela não é o que entendemos por inclusão, mas sim compreender que será preciso reconfigurar as dinâmicas da instituição tornando-a um espaço mais inclusivo que caiba esse aluno, junto com todos os outros. Logo, o trabalho com a inclusão se dá em grande parte a nível institucional. Circular pela escola, criar conexões com seus diferentes atores, propor modificações, inventar novas estratégias de trabalho e outras formas de ensinar fazem parte do trabalho com a inclusão. O profissional precisa estar com o aluno ao mesmo tempo que circula pela escola. A inclusão, nesse caso, é uma forma de entender as relações que se estabelecem ali, e que envolve todos, e não apenas o aluno em situação de inclusão.

Nossa outra premissa é que, uma vez na escola, somos todos educadores. Sendo assim, é preciso procurar entender de escola, de educação e do desenvolvimento cognitivo e emocional que se espera, em geral, de um aluno da faixa etária atendida. O profissional, , precisa estar disposto a estudar sobre os diferentes aspectos da escola e do desenvolvimento das crianças e adolescentes. Ao mesmo tempo, ele precisa entender como a escola em que o aluno estuda investe nos seus alunos quais objetivos que propõe e os meios para alcançá-los. Ou seja, é preciso ter uma visão geral do desenvolvimento dos alunos e, ao mesmo tempo, perceber a singularidade do projeto político pedagógico da instituição em que cada um está inserido.

Ao mesmo tempo, é preciso mapear como esse aluno em situação de inclusão aprende os conteúdos, os funcionamentos e as regras da escola. Em seguida, quais são as dificuldades que emergem no encontro entre a forma singular de aprender desse aluno e a forma de ensinar da escola. Uma vez que fique claro quais são as dificuldades desse encontro, podemos então traçar objetivos, adaptar currículo, atividades, materiais e estratégias, criando um planejamento para acompanhar o aluno.

Para conseguir construir esse planejamento, o profissional que trabalha com inclusão precisa ter sensibilidade frente ao outro. Os caminhos a serem propostos precisam negociar com diferentes atores que ocupam a escola e com a família, e serem possíveis dentro da realidade do aluno e da escola que ele frequenta.

Precisamos ter disponibilidade para nos modificar no encontro com o outro; em reinventar estratégias, criar e recriar materiais e ferramentas quantas vezes for necessário; e fazer parcerias com os outros profissionais – afinal, precisamos contar com a colaboração de todos.

Por fim, apostamos na construção de um trabalho com o aluno, a partir do que ele nos conta sobre sua forma de aprender. E também no que é possível criar de mundo comum entre esse profissional e o aluno, um mundo onde ambos possam habitar e falar a mesma língua. Ao mesmo tempo que vamos ampliando esse mundo comum para que outras pessoas possam estar junto, e por fim que a escola venha a se tornar um mundo comum habitável por todos.

Para trabalhar com inclusão precisamos abrir mão de saberes prontos e rígidos para efetivamente nos abrirmos para nos conectar com o outro e se modificar nesse encontro. E isso, nunca é a dado a priori. E por fim, deixamos a pergunta sempre em aberto: qual é a formação para trabalhar com inclusão?

O que conduz um trabalho de mediação ao fim

“A aluna pediu muito para mediadora ficar, “só faço as atividades se você ficar” dizia ela, saindo correndo para se esconder no banheiro. Ficou irritada com a situação, não gostou e pode dizer. A mediadora teve longas conversas com a menina, explicando os motivos da saída, acolhendo sua chateação. No final, mediadora e aluna puderam se despedir, trocaram pequenos presentes que puderam guardar um pouco da vivência gostosa que tiveram.”

Em nossos textos, temos abordado diferentes aspectos do trabalho de mediação escolar. Dessa vez falaremos sobre o seu fim; fim esse que não tomamos somente como o término de um vínculo de trabalho, mas como uma parte importante do trabalho da mediação.

Em diversas ocasiões surpreendemos nossos interlocutores afirmando que “trabalhamos para deixar de trabalhar”, porque nossas intervenções visam construir um percurso que culmina na autonomia do aluno em situação de inclusão, ao mesmo tempo que busca o engajamento da escola, a tal ponto que não mais precisaremos estar presentes, ou seja, na finalização da mediação. Apostamos em criar ferramentas e estratégias que instrumentalizem a escola para lidar com as diferenças dos alunos, tornando-se ela mesma um lugar diferente. Nessa esteira também é preciso enlaçar o aluno a essas criações, de forma que se tornem mediadores na relação deles com o aprendizado. Uma vez que existe um lugar comum que possam habitar aluno e escola, recheado de diferentes mediadores de aprendizado, a inclusão pode prescindir da figura centralizadora do mediador escolar.

Cada término de um trabalho de mediação escolar se configura como um processo único, e pode acontecer por diferentes motivos – podemos sair por percebermos que o aluno não precisa mais de mediação; por entendemos que as demandas de trabalho se afastam da proposta de mediação que acreditamos; ou que nossas apostas não atendem as demandas da família, ou da escola, e elas mesmas encerram o trabalho. Outras vezes, por estar tempo demais com um mesmo aluno, achamos que uma pessoa nova, com um novo olhar, por trazer frescor para o trabalho; e por vezes impossibilidades práticas atrapalham o andamento da mediação.

O primeiro passo da mediação é construção de vínculo. Dessa forma, criamos com o aluno um laço de afeto que torna o processo de saída sempre delicado. Quando decidimos sair porque o aluno já não precisa de nós, costuma ser mais fácil. No entanto, quando são outros os motivos, é mais difícil. Tentamos todas as possibilidades antes de decidir por encerrar o trabalho. No entanto, diante de um impasse que não pôde ser resolvido e optando-se pelo fim da mediação, é preciso conduzir o fechamento desse trabalho de forma ética e cuidadosa com o aluno.

Precisamos costurar esse fechamento explicando os motivos ao aluno, podendo se despedir dele e, quando possível, indicar alguém bacana que possa dar continuidade ao trabalho. Por vezes, deixamos com a escola e com a família uma escrita sensível que possa dar algumas direções para a continuidade da mediação. É preciso tempo para tudo isso, por isso, o ideal é avisar o quanto antes sobre o término da mediação, seja ele uma decisão da família ou do profissional. Assim como a família e a escola, o mediador está comprometido com um trabalho, e por isso tem toda sua rotina organizada para ele. Ele também precisa de tempo e cuidado para se reorganizar.

Nos parece muito ruim para o aluno, e para todos os envolvidos, quando a finalização da mediação se dá quase como mágica – um dia o mediador está lá e no outro não está mais – sem que nada tenha sido dito e explicado; sem dar a chance do aluno, da família, da escola e do mediador se expressarem seja reclamando, brigando e/ou ficando muito junto nos últimos dias.

Exùpery nos ajuda a explicar o trabalho do mediador: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”, diz ele no Pequeno Príncipe. Mesmo longe, mesmo que o tempo passe, sabemos que podemos ter mudado a vida de uma pessoa. E isso é muita responsabilidade.

OBS: tivemos um problema técnico e acabamos atrasando a publicação quinzenal; com esse texto retomamos a periodicidade quinzenal.

Como a situação de “inclusão” beneficia a escola “regular”

Crianças em situação de inclusão trazem consigo tantas pluralidades de funcionamentos que produzem verdadeiras revoluções cotidianas. Elas nos desafiam a repensar as estruturas e funções já dadas para as coisas existentes, impedindo que se conservem sempre da mesma forma.

Ao serem elas mesmas uma variação de funcionamentos, produzem o alargamento na concepção do que é ou não possível. Como efeito, um movimento de expansão se espalha nas escolas no encontro com a diferença.

O aluno João (nome fictício), de 5 anos, tem dificuldades motoras. Correr, para ele, é uma experiência diferente do que é para outras crianças. Certa vez, um amigo de João foi flagrado brincando de pique com ele de um modo diferente. Corria atrás dele devagar para que João também pudesse experimentar o lugar de ser pego. E João, empolgado, em seguida, corria atrás dele para pegá-lo, em seu próprio ritmo. Os dois se divertiam muito, inaugurando um universo próprio, dotado de outras regras, ritmos e acordos, num nítido movimento não de aceitação da diferença, mas sim de tornar-se diferente. Essa modalidade de brincadeira foi construída por eles, sem que nenhum adulto tivesse ali feito intervenção.

Deparar-se com tal situação, para nós mediadores, é uma experiência vitalizante. Isso porque presenciamos acontecimentos alegres e criativos que se produzem e enriquecem o universo escolar. Novos sentidos são confeccionados através das misturas de funcionamentos diferentes.

Ao presenciarmos a mistura das diferenças, que fazem borrar as fronteiras entre o normal e o anormal, o certo e o errado, temos a experiência de que as escolas “regulares” se beneficiam no encontro com a situação de “inclusão”. E assim, a escola se renova, se repensa, se reformula, fazendo caber nela mais alunos; torna-se um espaço mais plural. O poeta Manoel de Barros nos dá pistas disto afirmando que precisamos “perder a inteligência das coisas para vê-las”.

O AFETO como CAMINHO de TRABALHO

Em nosso último post, escrevemos sobre a questão da agressividade nas escolas. Nos nossos acompanhamentos percebemos que, na maior parte das vezes, explica-se esses comportamentos apontando uma suposta falta de limite. Dessa forma, a expectativa com relação ao trabalho de mediação é de impor esse limite que falta; sendo ele entendido como uma postura rígida, focada na imposição das regras e baseado no “não”.

Propomos então uma torção no termo “limite”. Queremos conectá-lo com palavras como: contorno, acolhimento, confiança, segurança e respeito. Apostamos nisso, pois como mediadores temos experenciado que é pela via do afeto e do diálogo que conseguimos trabalhar. O cuidado está em levar em consideração o que o aluno tem a dizer, porque não sabemos sobre a experiência do outro; não sabemos sobre o que fala essa recusa. Queremos escutar para que as nossas intervenções não sejam invasivas, e acabem por silenciar as expressões que estão para além da agressividade, impossibilitando que outros caminhos possam ser trilhados.

Um dos pilares fundamentais do nosso trabalho é a construção de vínculo com o aluno, e este vínculo acontece quando está calcado na segurança, no apoio, na cumplicidade e no respeito mútuo. Ao iniciarmos o nosso trabalho dentro de uma escola nos é apresentado uma quantidade grande de demandas que passam pelo pedagógico, pelo comportamento, pelas adaptações de material. Mas, é apenas quando se estabelece um vínculo com o aluno atendido que podemos nos debruçar de fato sobre essas demandas que nos são endereçadas.

O vínculo pode acontecer de várias maneiras e depende de muitos fatores: quem é o aluno – sua faixa etária, interesses, facilidades, dificuldades -, do mediador, do contexto escolar e das demandas de intervenção. Podemos nos utilizar de jogos, brincadeiras, desenho, conversas; fazer juntos exercícios e atividades propostas e, é claro, nomear as regras da escola. O afeto não tem regra, cada aluno solicita e expressa como pode. E cada mediador oferece como pode.

Há um tempo atrás, vivenciamos um experiência muito bacana que nos fez pensar sobre essa questão do vínculo. Acompanhamos uma menina, já adolescente, que se vestia como uma menina pequena, destoava muito das outras meninas da turma, e nos parecia que isso dificultava a aproximação com os colegas. Pudemos presenciar algumas transformações que ela pode operar justamente no encontro com sua mediadora; na identificação com a mediadora, que vestia roupas diferentes, coloridas, pulseiras, um óculos bacana, pintava a unha. A menina começou a se autorizar a mudar o penteado e a roupa, o que acabou chamando atenção de seus colegas. Isso, ajudou a modificar as relações na sala de aula, e a aluna passou a fazer mais parte da turma, ser mais vista e aos poucos ir cultivando um sentimento de pertencimento na escola.

O trabalho com a inclusão nos permite o movimento de borrar as fronteiras entre certo e errado, pois eles nos convocam a estar sempre atentos a flexibilização das regras – quando esse aluno pode fazer igual a todos os outros alunos e quando ele pode fazer diferente? Entendemos que as regras criam um contorno importante, no entanto, precisamos pensar quais delas podemos tornar parte do cotidiano desse aluno, quais vamos negociar com ele e quais iremos deixar de lado. Talvez no momento em que está tão difícil estar na escola, estar com o outro, é preciso abrir mão de algumas regras e ir criando outras.

Os alunos em situação de inclusão abrem essa brecha no espaço escolar que permite dar espaço para a sua singularidade; e nos faz refletir para muito além da questão do limite. Questionamos os vínculos construídos no espaço escolar, as noções de certo e errado, o que é limite, o lugar do afeto na aprendizagem. E certamente, não nos parece que isso se relaciona apenas com os alunos em situação de inclusão, mas com todas as pessoas que circulam pela escola e podem ser beneficiadas por um olhar mais atento e cuidadoso.

Os impasses são bem-vindos

Semanas atrás, participamos da “XIII Semana de Psicologia da UFF”. Fomos convidadas para discutir o tema “Inclusão e Mediação Escolar”. Para isso, escolhemos levar algumas cenas do nosso trabalho como mediadores.

O encontro funcionou como uma roda de conversa onde pudemos debater livremente o tema. A partir das cenas lidas, muitos questionamentos foram feitos. , Compartilhamos aqui algumas ideias que surgiram nesse encontro: Dentro da escola caberia ao mediador ser a referência para o aluno em situação de inclusão? Como os professores, em suas salas de aula, vêm trabalhando a questão da diferença com seus alunos? A presença do mediador contribui ou atrapalha a inclusão na escola? Qual o objetivo do mediador dentro de sala com o aluno? Será que cabe ao mediador ocupar o papel de professor do aluno?

Saímos do encontro com mais perguntas do que entramos. Que bom!, já que são elas que sustentam nosso trabalho. Pudemos dividir algumas ideias com os presentes, sem muitas respostas. Por exemplo, entendemos que o trabalho de mediação se constrói no encontro com o aluno, a escola, a família. O mediador entra na escola para auxiliar a criação de estratégias frente aos desafios da inclusão do aluno; ou seja, buscamos ser um profissional a mais, compondo em parceria com a escola, e não o ator principal desse processo. Às vezes atuamos dentro de sala, em outros momentos trabalhamos fora de sala; quando estamos em sala tentamos estar junto com o professor, e as apostas que serão feitas junto com o aluno dependerão das dificuldades e facilidades que encontrarmos.

Os questionamentos que apareceram durante o evento na UFF evidenciam que o processo de inclusão é recheado de impasses. Não sabemos, antes de começar, o que iremos fazer. Dessa forma, entendemos que as tensões e os impasses são bem-vindos, eles abrem brechas que para possamos balançar e, quem sabe, até modificar a estrutura por vezes enrijecida da dinâmica escolar.

O impasse existe. A dúvida, também. Entramos nas escolas, muitas vezes, para obturar os buracos do processo de aprendizagem do aluno em situação de inclusão; para tentar criar algum contorno diante de tantos desafios e impossibilidades. Acreditamos que também é nosso papel deixar aparecer essas faltas, pois são elas que afirmam que o funcionamento da escola precisa se modificar. Assim, com frequência, é preciso sustentar a ansiedade e o medo diante dos buracos, dos erros, dos problemas, para dar oportunidades para que a escola aja, resolva, improvise, providencie, se mova.

Saímos modificados desse encontro na Psicologia da UFF. Acreditamos que esses espaços de discussão são potentes, na medida em que criam alargamentos e questionamentos sobre nossas práticas. Cabe a nós, no encontro com a diferença, estar sempre perguntando: Estamos criando movimento ou enrijecimento? Produzindo reflexões ou apaziguamentos? De que inclusão estamos falando?