O que conduz um trabalho de mediação ao fim

“A aluna pediu muito para mediadora ficar, “só faço as atividades se você ficar” dizia ela, saindo correndo para se esconder no banheiro. Ficou irritada com a situação, não gostou e pode dizer. A mediadora teve longas conversas com a menina, explicando os motivos da saída, acolhendo sua chateação. No final, mediadora e aluna puderam se despedir, trocaram pequenos presentes que puderam guardar um pouco da vivência gostosa que tiveram.”

Em nossos textos, temos abordado diferentes aspectos do trabalho de mediação escolar. Dessa vez falaremos sobre o seu fim; fim esse que não tomamos somente como o término de um vínculo de trabalho, mas como uma parte importante do trabalho da mediação.

Em diversas ocasiões surpreendemos nossos interlocutores afirmando que “trabalhamos para deixar de trabalhar”, porque nossas intervenções visam construir um percurso que culmina na autonomia do aluno em situação de inclusão, ao mesmo tempo que busca o engajamento da escola, a tal ponto que não mais precisaremos estar presentes, ou seja, na finalização da mediação. Apostamos em criar ferramentas e estratégias que instrumentalizem a escola para lidar com as diferenças dos alunos, tornando-se ela mesma um lugar diferente. Nessa esteira também é preciso enlaçar o aluno a essas criações, de forma que se tornem mediadores na relação deles com o aprendizado. Uma vez que existe um lugar comum que possam habitar aluno e escola, recheado de diferentes mediadores de aprendizado, a inclusão pode prescindir da figura centralizadora do mediador escolar.

Cada término de um trabalho de mediação escolar se configura como um processo único, e pode acontecer por diferentes motivos – podemos sair por percebermos que o aluno não precisa mais de mediação; por entendemos que as demandas de trabalho se afastam da proposta de mediação que acreditamos; ou que nossas apostas não atendem as demandas da família, ou da escola, e elas mesmas encerram o trabalho. Outras vezes, por estar tempo demais com um mesmo aluno, achamos que uma pessoa nova, com um novo olhar, por trazer frescor para o trabalho; e por vezes impossibilidades práticas atrapalham o andamento da mediação.

O primeiro passo da mediação é construção de vínculo. Dessa forma, criamos com o aluno um laço de afeto que torna o processo de saída sempre delicado. Quando decidimos sair porque o aluno já não precisa de nós, costuma ser mais fácil. No entanto, quando são outros os motivos, é mais difícil. Tentamos todas as possibilidades antes de decidir por encerrar o trabalho. No entanto, diante de um impasse que não pôde ser resolvido e optando-se pelo fim da mediação, é preciso conduzir o fechamento desse trabalho de forma ética e cuidadosa com o aluno.

Precisamos costurar esse fechamento explicando os motivos ao aluno, podendo se despedir dele e, quando possível, indicar alguém bacana que possa dar continuidade ao trabalho. Por vezes, deixamos com a escola e com a família uma escrita sensível que possa dar algumas direções para a continuidade da mediação. É preciso tempo para tudo isso, por isso, o ideal é avisar o quanto antes sobre o término da mediação, seja ele uma decisão da família ou do profissional. Assim como a família e a escola, o mediador está comprometido com um trabalho, e por isso tem toda sua rotina organizada para ele. Ele também precisa de tempo e cuidado para se reorganizar.

Nos parece muito ruim para o aluno, e para todos os envolvidos, quando a finalização da mediação se dá quase como mágica – um dia o mediador está lá e no outro não está mais – sem que nada tenha sido dito e explicado; sem dar a chance do aluno, da família, da escola e do mediador se expressarem seja reclamando, brigando e/ou ficando muito junto nos últimos dias.

Exùpery nos ajuda a explicar o trabalho do mediador: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”, diz ele no Pequeno Príncipe. Mesmo longe, mesmo que o tempo passe, sabemos que podemos ter mudado a vida de uma pessoa. E isso é muita responsabilidade.

OBS: tivemos um problema técnico e acabamos atrasando a publicação quinzenal; com esse texto retomamos a periodicidade quinzenal.

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Os impasses são bem-vindos

Semanas atrás, participamos da “XIII Semana de Psicologia da UFF”. Fomos convidadas para discutir o tema “Inclusão e Mediação Escolar”. Para isso, escolhemos levar algumas cenas do nosso trabalho como mediadores.

O encontro funcionou como uma roda de conversa onde pudemos debater livremente o tema. A partir das cenas lidas, muitos questionamentos foram feitos. , Compartilhamos aqui algumas ideias que surgiram nesse encontro: Dentro da escola caberia ao mediador ser a referência para o aluno em situação de inclusão? Como os professores, em suas salas de aula, vêm trabalhando a questão da diferença com seus alunos? A presença do mediador contribui ou atrapalha a inclusão na escola? Qual o objetivo do mediador dentro de sala com o aluno? Será que cabe ao mediador ocupar o papel de professor do aluno?

Saímos do encontro com mais perguntas do que entramos. Que bom!, já que são elas que sustentam nosso trabalho. Pudemos dividir algumas ideias com os presentes, sem muitas respostas. Por exemplo, entendemos que o trabalho de mediação se constrói no encontro com o aluno, a escola, a família. O mediador entra na escola para auxiliar a criação de estratégias frente aos desafios da inclusão do aluno; ou seja, buscamos ser um profissional a mais, compondo em parceria com a escola, e não o ator principal desse processo. Às vezes atuamos dentro de sala, em outros momentos trabalhamos fora de sala; quando estamos em sala tentamos estar junto com o professor, e as apostas que serão feitas junto com o aluno dependerão das dificuldades e facilidades que encontrarmos.

Os questionamentos que apareceram durante o evento na UFF evidenciam que o processo de inclusão é recheado de impasses. Não sabemos, antes de começar, o que iremos fazer. Dessa forma, entendemos que as tensões e os impasses são bem-vindos, eles abrem brechas que para possamos balançar e, quem sabe, até modificar a estrutura por vezes enrijecida da dinâmica escolar.

O impasse existe. A dúvida, também. Entramos nas escolas, muitas vezes, para obturar os buracos do processo de aprendizagem do aluno em situação de inclusão; para tentar criar algum contorno diante de tantos desafios e impossibilidades. Acreditamos que também é nosso papel deixar aparecer essas faltas, pois são elas que afirmam que o funcionamento da escola precisa se modificar. Assim, com frequência, é preciso sustentar a ansiedade e o medo diante dos buracos, dos erros, dos problemas, para dar oportunidades para que a escola aja, resolva, improvise, providencie, se mova.

Saímos modificados desse encontro na Psicologia da UFF. Acreditamos que esses espaços de discussão são potentes, na medida em que criam alargamentos e questionamentos sobre nossas práticas. Cabe a nós, no encontro com a diferença, estar sempre perguntando: Estamos criando movimento ou enrijecimento? Produzindo reflexões ou apaziguamentos? De que inclusão estamos falando?