O material como mediador da aprendizagem

A experiência de mediação vem nos mostrando como a adaptação de material e a produção de material de apoio é importante para auxiliar nosso trabalho com os alunos. Entendemos que esses materiais podem se tornar importantes mediadores.

As adaptações se dão a partir de um material produzido pelo professor (provas, testes, fichas, apostilas, atividades e livros), no qual fazemos alterações importantes para o acesso do aluno ao conhecimento. Já os matérias de apoio só entram em cena quando avaliamos, junto com a escola, que as atividades oferecidas não estão dando conta do aprendizado do aluno.

Produzir material adaptado ou de apoio só faz sentido porque partimos da premissa de que todas as pessoas são capazes de aprender. Acreditamos que nem todas as pessoas aprendem da mesma forma e, por isso, precisamos criar outras formas, outros materiais, outros mediadores na relação com o aprendizado.

Algumas perguntas tem guiado nossas ideias com relação a adaptação de material: Quando um material deve ser adaptado e quais adaptações são necessárias? Quem faz a adaptação? Quem decide o que e como adaptar?

Produzir materiais adaptados ou de apoio não é uma tarefa fácil. O principal objetivo da adaptação é permitir que o aluno se relacione de forma mais autônoma com as atividades – provas, testes, apostilas, fichas, livro, exercícios, brincadeiras. Nosso objetivo é que o aluno que acompanhamos (em situação de inclusão) possa estar inserido nas atividades da turma, respeitando suas possibilidades. Dessa forma, a adaptação precisa estar em sintonia com o planejamento dos professores, mantendo, sempre que possível, o mesmo tema que está sendo discutido em sala.

Essa é uma tarefa extremamente delicada, para a qual buscamos o apoio da escola. Há conteúdos que serão apresentados, outros não, e há os que passarão por alterações ou simplificações. Apostamos que o professor saberá dizer melhor o que é importante naquele currículo, uma vez que ele entende melhor da sua matéria e das formas de ensiná-la. Nós, mediadores, por estarmos muito próximos ao aluno podemos ajudar e pensar, junto com a equipe da escola, quais caminhos seguir em seu aprendizado.

No processo de produção dos materiais outras questões se apresentam: O que quero trabalhar ao produzir esse material? Quais as dúvidas do aluno em relação ao conteúdo que será apresentado? Podemos elencar algumas estratégias que criamos para a adaptação de materiais: mexer na apresentação da atividade, simplificar a linguagem dos enunciados, colocar imagens ou textos de apoio, mudar a forma de resposta colocando opções, diminuir a quantidade de questões, e quando necessário substituir os conteúdos não selecionados para aquele aluno por outros.

Mas por onde começar? Talvez o primeiro passo seja conhecer o aluno – quais são seus interesses? Suas dificuldades? Suas facilidades?

Somente a partir disso podemos começar as nos arriscar a criar materiais ou adaptações. Esse é sempre um movimento de tentativas, permeados por erros e acertos. Nossas tentativas vão ficando mais precisas a partir do que o aluno vai nos mostrando – como ele lida com o material, como ele aprende, quais tentativas funcionam melhor para ele, e quais não servem.

Ao nos deparamos com aquilo que é, supostamente, um obstáculo à aprendizagem, fazemos contato com novas formas de apreender o mundo. Isso nos abre para pensar a própria concepção de ensino dentro da escola, que muitas vezes demanda a todos os alunos que aprendam da mesma forma e no mesmo tempo. Portanto, assinalamos a grande importância da escuta do outro para a construção de relações de ensino-aprendizagem mais plurais, afirmando a diferença como forma de estar no mundo.

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O AFETO como CAMINHO de TRABALHO

Em nosso último post, escrevemos sobre a questão da agressividade nas escolas. Nos nossos acompanhamentos percebemos que, na maior parte das vezes, explica-se esses comportamentos apontando uma suposta falta de limite. Dessa forma, a expectativa com relação ao trabalho de mediação é de impor esse limite que falta; sendo ele entendido como uma postura rígida, focada na imposição das regras e baseado no “não”.

Propomos então uma torção no termo “limite”. Queremos conectá-lo com palavras como: contorno, acolhimento, confiança, segurança e respeito. Apostamos nisso, pois como mediadores temos experenciado que é pela via do afeto e do diálogo que conseguimos trabalhar. O cuidado está em levar em consideração o que o aluno tem a dizer, porque não sabemos sobre a experiência do outro; não sabemos sobre o que fala essa recusa. Queremos escutar para que as nossas intervenções não sejam invasivas, e acabem por silenciar as expressões que estão para além da agressividade, impossibilitando que outros caminhos possam ser trilhados.

Um dos pilares fundamentais do nosso trabalho é a construção de vínculo com o aluno, e este vínculo acontece quando está calcado na segurança, no apoio, na cumplicidade e no respeito mútuo. Ao iniciarmos o nosso trabalho dentro de uma escola nos é apresentado uma quantidade grande de demandas que passam pelo pedagógico, pelo comportamento, pelas adaptações de material. Mas, é apenas quando se estabelece um vínculo com o aluno atendido que podemos nos debruçar de fato sobre essas demandas que nos são endereçadas.

O vínculo pode acontecer de várias maneiras e depende de muitos fatores: quem é o aluno – sua faixa etária, interesses, facilidades, dificuldades -, do mediador, do contexto escolar e das demandas de intervenção. Podemos nos utilizar de jogos, brincadeiras, desenho, conversas; fazer juntos exercícios e atividades propostas e, é claro, nomear as regras da escola. O afeto não tem regra, cada aluno solicita e expressa como pode. E cada mediador oferece como pode.

Há um tempo atrás, vivenciamos um experiência muito bacana que nos fez pensar sobre essa questão do vínculo. Acompanhamos uma menina, já adolescente, que se vestia como uma menina pequena, destoava muito das outras meninas da turma, e nos parecia que isso dificultava a aproximação com os colegas. Pudemos presenciar algumas transformações que ela pode operar justamente no encontro com sua mediadora; na identificação com a mediadora, que vestia roupas diferentes, coloridas, pulseiras, um óculos bacana, pintava a unha. A menina começou a se autorizar a mudar o penteado e a roupa, o que acabou chamando atenção de seus colegas. Isso, ajudou a modificar as relações na sala de aula, e a aluna passou a fazer mais parte da turma, ser mais vista e aos poucos ir cultivando um sentimento de pertencimento na escola.

O trabalho com a inclusão nos permite o movimento de borrar as fronteiras entre certo e errado, pois eles nos convocam a estar sempre atentos a flexibilização das regras – quando esse aluno pode fazer igual a todos os outros alunos e quando ele pode fazer diferente? Entendemos que as regras criam um contorno importante, no entanto, precisamos pensar quais delas podemos tornar parte do cotidiano desse aluno, quais vamos negociar com ele e quais iremos deixar de lado. Talvez no momento em que está tão difícil estar na escola, estar com o outro, é preciso abrir mão de algumas regras e ir criando outras.

Os alunos em situação de inclusão abrem essa brecha no espaço escolar que permite dar espaço para a sua singularidade; e nos faz refletir para muito além da questão do limite. Questionamos os vínculos construídos no espaço escolar, as noções de certo e errado, o que é limite, o lugar do afeto na aprendizagem. E certamente, não nos parece que isso se relaciona apenas com os alunos em situação de inclusão, mas com todas as pessoas que circulam pela escola e podem ser beneficiadas por um olhar mais atento e cuidadoso.

Agressividade – um bolo tem muitos ingredientes.

Temos esbarrado com a temática da agressividade no cotidiano de nosso trabalho – alunos agressivos com seus pares e com os adultos na escola. Paralelamente, vivemos um cenário onde a medicalização da vida torna-se um imperativo que põe de joelhos muitos campos de saberes, inclusive o da educação. Assim, nosso desafio é pensar a agressividade que vem se manifestando no cenário escolar sem aceitar a tendência de catalogá-la em transtornos que, muitas vezes, reduzem uma expressão complexa a um único par “diagnóstico-remédio”. Para além disso, como pensar e intervir de modo ético nesse contexto que implica a todos nós?

Certamente, estamos tratando de uma temática extensa e delicada e, portanto, não pretendemos esgotá-la. Queremos apenas nos servir da inquietação e angústia que ela nos causa para disparar algumas questões, recusando toda tentativa de simplificação desta expressão.

Temos percebido tentativas de apaziguar qualquer movimento de perturbação no espaço escolar que se apresenta supostamente uniforme. Muitas vezes essas tentativas se dão através do controle dos sintomas no corpo do aluno, sem que haja uma escuta honesta aos elementos contidos dentro dessa manifestação.

Se queremos fugir dessa individualização do problema, o que fazer? Não temos respostas, é verdade. Mas uma coisa nos interessa afirmar: um aluno com um carimbo/diagnóstico, carrega sozinho no seu corpo todo o peso de um problema coletivo. É como um bolo pronto; quando olhamos pra ele, ele nos comunica uma unidade e não aparenta, num primeiro olhar, ser composto por tantos ingredientes.

O que nos comunica essa agressividade? Talvez não se trate de perguntar – esse problema é de quem? – mas de indagar quais elementos forjam a agressividade como forma privilegiada de manifestação de um incômodo sentido por alguns alunos. E que outras formas de agressividade, que não só a do aluno, estão habitando o espaço escolar?

Nossa vivência nas escolas tem nos trazido muitos incômodos, angústias e sobretudo perguntas: que caminho seguir? Afastar o aluno da convivência escolar? Mantê-lo? Brigar? Acolher? Retirar o aluno da sala? Alternar momentos com o grupo e sem o grupo? Negociar? Diminuir o tempo que ele fica na escola?

Nos perguntamos o que será que esse aluno está querendo nos dizer sobre as práticas que temos produzido. Poderia ser a agressividade porta-voz de algo que não está funcionando? Como afirmar a responsabilidade de todos frente ao sofrimento que ele nos comunica? Acreditamos que a agressividade se produz enquanto processo, no encontro entre aquele aluno e aquele espaço (e outros espaços) e não num corpo individual.

Ocupando o lugar de mediadores, temos indagado qual é o nosso papel frente a esses desafios. Nesse momento, sabemos que não somos capazes de lidar com essas questões sozinhos. Entendemos também que é pela via do afeto, do carinho, que temos alguma chance de estar com os alunos; e podemos produzir encontros que não sejam pautados apenas pelo “não”, pois corremos o risco de também sermos agressivos. Apostar em dizer mais “sim”, no brincar, na escuta atenta e na flexibilidade pode ser uma alternativa. Temos nos deparado também com nossos limites. Os limites dos nossos corpos enquanto mediadores; até onde conseguimos intervir e quando precisamos nos retirar e abrir espaço para outras pessoas ocuparem esse lugar.

A lógica da urgência não deixa tempo nem espaço para lançarmos outros olhares sobre os incômodos que aparecem na escola, e estamos perdendo a capacidade de interrogar e estranhar o que está bem embaixo de nossos narizes. Trata-se de algo muito complexo e urge que possamos inventar e construir novos modos de enfrentar esse desafio para que não fiquemos somente no lugar de denunciar ou silenciar.

Os impasses são bem-vindos

Semanas atrás, participamos da “XIII Semana de Psicologia da UFF”. Fomos convidadas para discutir o tema “Inclusão e Mediação Escolar”. Para isso, escolhemos levar algumas cenas do nosso trabalho como mediadores.

O encontro funcionou como uma roda de conversa onde pudemos debater livremente o tema. A partir das cenas lidas, muitos questionamentos foram feitos. , Compartilhamos aqui algumas ideias que surgiram nesse encontro: Dentro da escola caberia ao mediador ser a referência para o aluno em situação de inclusão? Como os professores, em suas salas de aula, vêm trabalhando a questão da diferença com seus alunos? A presença do mediador contribui ou atrapalha a inclusão na escola? Qual o objetivo do mediador dentro de sala com o aluno? Será que cabe ao mediador ocupar o papel de professor do aluno?

Saímos do encontro com mais perguntas do que entramos. Que bom!, já que são elas que sustentam nosso trabalho. Pudemos dividir algumas ideias com os presentes, sem muitas respostas. Por exemplo, entendemos que o trabalho de mediação se constrói no encontro com o aluno, a escola, a família. O mediador entra na escola para auxiliar a criação de estratégias frente aos desafios da inclusão do aluno; ou seja, buscamos ser um profissional a mais, compondo em parceria com a escola, e não o ator principal desse processo. Às vezes atuamos dentro de sala, em outros momentos trabalhamos fora de sala; quando estamos em sala tentamos estar junto com o professor, e as apostas que serão feitas junto com o aluno dependerão das dificuldades e facilidades que encontrarmos.

Os questionamentos que apareceram durante o evento na UFF evidenciam que o processo de inclusão é recheado de impasses. Não sabemos, antes de começar, o que iremos fazer. Dessa forma, entendemos que as tensões e os impasses são bem-vindos, eles abrem brechas que para possamos balançar e, quem sabe, até modificar a estrutura por vezes enrijecida da dinâmica escolar.

O impasse existe. A dúvida, também. Entramos nas escolas, muitas vezes, para obturar os buracos do processo de aprendizagem do aluno em situação de inclusão; para tentar criar algum contorno diante de tantos desafios e impossibilidades. Acreditamos que também é nosso papel deixar aparecer essas faltas, pois são elas que afirmam que o funcionamento da escola precisa se modificar. Assim, com frequência, é preciso sustentar a ansiedade e o medo diante dos buracos, dos erros, dos problemas, para dar oportunidades para que a escola aja, resolva, improvise, providencie, se mova.

Saímos modificados desse encontro na Psicologia da UFF. Acreditamos que esses espaços de discussão são potentes, na medida em que criam alargamentos e questionamentos sobre nossas práticas. Cabe a nós, no encontro com a diferença, estar sempre perguntando: Estamos criando movimento ou enrijecimento? Produzindo reflexões ou apaziguamentos? De que inclusão estamos falando?

Experiências Escritas – sobre o que escrevemos?

“Como fazer esse trabalho mudou sua visão de mundo?” – Minha primeira escuta foi de descaso, a pergunta me pareceu um clichê que não fazia sentido naquele contexto. Estávamos falando numa mesa da Semana de Psicologia da UFF, sobre o tema da Inclusão e Mediação Escolar. Ligia, ao meu lado, tomou a palavra, e me surpreendi com ela querer dar uma resposta, e ter o que dizer. Enquanto ela falava, me senti impelida a falar também. Eu aprendi muito com esse trabalho, mas o que mesmo? Não era a convivência com a diferença, com a deficiência, já que cresci com ela em casa. Hesitei, e outra pessoa pegou a palavra, já querendo mudar de assunto. Pedi para voltar. Pude, então, dizer uma das coisas que mudou me mim com esse trabalho – a possibilidade de aprender com essas pessoas; o quanto descobri e aprendi com os meninos que acompanhei na escola. É muito bonito o discurso de que todos aprendem com todos. Mas é diferente viver essa experiência na pele. Essas escritas são a afirmação dessa mudança minha no mundo. Escrevo sobre o que aprendi com eles nesses anos todos.”

A  mediação escolar vem se consolidando como a  principal prática de inclusão nas escolas. E é sobre a prática do mediador que vamos falar em nossas escritas – Qual o trabalho do mediador escolar? Quem é esse profissional? O que ele produz na escola? Queremos dividir com vocês nossos questionamentos, ideias, perguntas e conquistas. Também queremos falar sobre diferença, inclusão, aprendizagens, conteúdos curriculares e seus materiais didáticos. Temas que compõe o cenário da inclusão escolar, e atravessam a prática do mediador, assim como de todos os atores que participam dessa empreitada – coordenadores, pais, familiares, professores. Queremos construir com vocês algumas pistas que nos ajudem a pensar o trabalho do mediador, assim como os desafios da inclusão.

O dicionário Michaelis define o verbo mediar, entre outras possibilidades, como: “2 Ficar no meio de dois pontos, no espaço, ou de duas épocas, no tempo (…).; Mediação: 5 Contrato especial pelo qual uma pessoa, mediante remuneração, se incumbe de empregar o seu trabalho ou diligência para obter que duas ou mais pessoas, interessadas num determinado negócio, se aproximem com o fim de o realizar; E mediador: 1 Árbitro.”

Com alguns desses significados podemos compor, e outros nos incomodam um tanto. A ideia de ser uma pessoa que fica no meio rendeu boas conversas nos encontros dos grupos sobre mediação do projeto EMI. Ficaríamos no meio entre quem e quem? Ou entre o que e quem? Pensamos em pares como escola e aluno, aluno e conteúdo e talvez também aluno e seus colegas. Depois paramos para pensar se ficar no meio era uma ação que podia definir nosso trabalho. Em algumas situações talvez fiquemos no meio, se entendermos esse “meio” como um espaço entre que poderíamos habitar por um período de tempo; e nesse lugar buscar aproximar duas ou mais partes. Essa ideia também se conecta à definição de mediação como aproximar duas partes com interesses semelhantes. Essa última coloca em cena o problema dos interesses: eles de fato convergem? Por exemplo, Interessa a escola estar perto do aluno em situação de inclusão?  Por fim, a ideia do mediador ser um árbitro, ou seja, decidir o que vale e o que não vale é extremamente delicada, e acho que não nos interessa se conectar com ela.

No projeto EMI criamos outra ideia para mediação, associamos à ponte: um instrumento de sustentação de encontros possíveis – aluno e escola; aluno e conhecimento; aluno e colega. Porém um lugar de passagem, no qual bons encontros possam acontecer e a ponte possa ser atravessada.

Assim essas escritas tem a ambição de interferir em uma situação concreta que é esse lugar do mediador, como ele contribui para a inclusão escolar e que outros fios ele faz colocar em cena que nos fazem pensar.

Quando é hora de retirar a criança de sala e quando é hora de mantê-la?

No dia a dia tentamos que “nossas” crianças possam participar o máximo possível junto com sua turma na sala de aula. Porém às vezes penso que o que o grupo está fazendo em um determinado momento é muito mais distante da criança dita de inclusão do que o que eu poderia trabalhar com ela fora da sala, uma vez que posso partir de suas vivências.  Fora de sala, tenho mais espaço para ousar.

Isso gera um grande conflito: se eu posso oferecer algo bem mais potente, para a criança porque mantê-la em sala de aula se ela não irá aprender quase nada (pelo menos, em termos de conteúdo)? Eu não fortaleço mais ela quando trocamos fora da sala? Mas, de certa forma, também não estou promovendo uma exclusão?

A realidade é dura. Mas, nesse momento, penso que precisamos ter o funcionamento do grupo como parâmetro. Se ninguém naquele momento está aprendendo, a nossa criança também não vai. Se o ritmo de cópias e exercícios está frenético, precisamos adaptar. Se a professora esta explicando um conteúdo totalmente fora das capacidades da criança, retiramos ela de sala. A escola hoje ainda não aprendeu que as crianças aprendem de formas distintas!

Precisamos esbarrar com os nossos limites o tempo inteiro e avaliar como estão ocorrendo as situações de inclusão, exclusão, sofrimento. Mais ainda, precisamos avaliar se o sofrimento é nosso ou da criança. Precisamos avaliar se a luta é nossa ou da criança. Além disso, precisamos avaliar se aquilo que estamos julgando como certo é o caminho que devemos seguir. Tenho medo de também nós querermos iludir essas crianças,  para que elas, na nossa opinião, sofram menos na escola. A realidade é dura.

 

Reflexões pós encontros: o que fazer diante do não?

Os encontros do EMI da semana passada me fizeram pensar no processo de aprendizagem de nossas crianças. Muitos foram os discursos de que a criança parecia não estar nem aí para a escola. outras vezes, ouvimos relatos de birras das crianças na resistência de se envolver com o aprender e o que isso implica. Uma das questões colocadas foi: o que fazer com aquele que diz não?

Muitas vezes, o ritmo frenético da escola não permite que a escola, o professor, escute essas crianças. Então, cabe a nós, mediadoras, acolher esse aluno e enxergar o aparente “nem aí” como um sintoma, um pedido de ajuda, e que precisa ser acolhido e trabalhado dentro e fora do espaço escolar.

Varias idéias circularam e ao voltar para casa, pensei: nossa, vamos voltar para aquela mesma discussão que a escola precisa se modificar! Precisamos fugir, um pouco, desse tipo de reflexão que fala do macro e que,muitas vezes por ser tão grande, nos imobiliza.

Podemos pensar um pouco como atuar no micro, no cotidiano dessas crianças e como torna-lo menos sofrido. Sempre usamos como estratégia em nossos encontros trazer alguma questão prática que precisa ser trabalhada na escola para a vivência da criança. Tentamos colar o discurso do saber ao do viver. Ok, isso é bom, isso investe na participação, mas acreditamos que o que está em jogo é algo muito mais complexo. É preciso trabalhar as capacidades subjetivas e, por consequência, criativas do sujeito. Se não investimos nas ferramentas que vão sustentar o aprender, e o querer aprender (e não só aquele aprender ligado ao objetivo, concreto) ficamos perdidos. Apostamos que é preciso insistir no vínculo (nosso com a criança e dela com o aprendizado) no simbólico e na criatividade. Sem isso, me parece, ficamos sem saída.