Como a situação de “inclusão” beneficia a escola “regular”

Crianças em situação de inclusão trazem consigo tantas pluralidades de funcionamentos que produzem verdadeiras revoluções cotidianas. Elas nos desafiam a repensar as estruturas e funções já dadas para as coisas existentes, impedindo que se conservem sempre da mesma forma.

Ao serem elas mesmas uma variação de funcionamentos, produzem o alargamento na concepção do que é ou não possível. Como efeito, um movimento de expansão se espalha nas escolas no encontro com a diferença.

O aluno João (nome fictício), de 5 anos, tem dificuldades motoras. Correr, para ele, é uma experiência diferente do que é para outras crianças. Certa vez, um amigo de João foi flagrado brincando de pique com ele de um modo diferente. Corria atrás dele devagar para que João também pudesse experimentar o lugar de ser pego. E João, empolgado, em seguida, corria atrás dele para pegá-lo, em seu próprio ritmo. Os dois se divertiam muito, inaugurando um universo próprio, dotado de outras regras, ritmos e acordos, num nítido movimento não de aceitação da diferença, mas sim de tornar-se diferente. Essa modalidade de brincadeira foi construída por eles, sem que nenhum adulto tivesse ali feito intervenção.

Deparar-se com tal situação, para nós mediadores, é uma experiência vitalizante. Isso porque presenciamos acontecimentos alegres e criativos que se produzem e enriquecem o universo escolar. Novos sentidos são confeccionados através das misturas de funcionamentos diferentes.

Ao presenciarmos a mistura das diferenças, que fazem borrar as fronteiras entre o normal e o anormal, o certo e o errado, temos a experiência de que as escolas “regulares” se beneficiam no encontro com a situação de “inclusão”. E assim, a escola se renova, se repensa, se reformula, fazendo caber nela mais alunos; torna-se um espaço mais plural. O poeta Manoel de Barros nos dá pistas disto afirmando que precisamos “perder a inteligência das coisas para vê-las”.

Anúncios

O material como mediador da aprendizagem

A experiência de mediação vem nos mostrando como a adaptação de material e a produção de material de apoio é importante para auxiliar nosso trabalho com os alunos. Entendemos que esses materiais podem se tornar importantes mediadores.

As adaptações se dão a partir de um material produzido pelo professor (provas, testes, fichas, apostilas, atividades e livros), no qual fazemos alterações importantes para o acesso do aluno ao conhecimento. Já os matérias de apoio só entram em cena quando avaliamos, junto com a escola, que as atividades oferecidas não estão dando conta do aprendizado do aluno.

Produzir material adaptado ou de apoio só faz sentido porque partimos da premissa de que todas as pessoas são capazes de aprender. Acreditamos que nem todas as pessoas aprendem da mesma forma e, por isso, precisamos criar outras formas, outros materiais, outros mediadores na relação com o aprendizado.

Algumas perguntas tem guiado nossas ideias com relação a adaptação de material: Quando um material deve ser adaptado e quais adaptações são necessárias? Quem faz a adaptação? Quem decide o que e como adaptar?

Produzir materiais adaptados ou de apoio não é uma tarefa fácil. O principal objetivo da adaptação é permitir que o aluno se relacione de forma mais autônoma com as atividades – provas, testes, apostilas, fichas, livro, exercícios, brincadeiras. Nosso objetivo é que o aluno que acompanhamos (em situação de inclusão) possa estar inserido nas atividades da turma, respeitando suas possibilidades. Dessa forma, a adaptação precisa estar em sintonia com o planejamento dos professores, mantendo, sempre que possível, o mesmo tema que está sendo discutido em sala.

Essa é uma tarefa extremamente delicada, para a qual buscamos o apoio da escola. Há conteúdos que serão apresentados, outros não, e há os que passarão por alterações ou simplificações. Apostamos que o professor saberá dizer melhor o que é importante naquele currículo, uma vez que ele entende melhor da sua matéria e das formas de ensiná-la. Nós, mediadores, por estarmos muito próximos ao aluno podemos ajudar e pensar, junto com a equipe da escola, quais caminhos seguir em seu aprendizado.

No processo de produção dos materiais outras questões se apresentam: O que quero trabalhar ao produzir esse material? Quais as dúvidas do aluno em relação ao conteúdo que será apresentado? Podemos elencar algumas estratégias que criamos para a adaptação de materiais: mexer na apresentação da atividade, simplificar a linguagem dos enunciados, colocar imagens ou textos de apoio, mudar a forma de resposta colocando opções, diminuir a quantidade de questões, e quando necessário substituir os conteúdos não selecionados para aquele aluno por outros.

Mas por onde começar? Talvez o primeiro passo seja conhecer o aluno – quais são seus interesses? Suas dificuldades? Suas facilidades?

Somente a partir disso podemos começar as nos arriscar a criar materiais ou adaptações. Esse é sempre um movimento de tentativas, permeados por erros e acertos. Nossas tentativas vão ficando mais precisas a partir do que o aluno vai nos mostrando – como ele lida com o material, como ele aprende, quais tentativas funcionam melhor para ele, e quais não servem.

Ao nos deparamos com aquilo que é, supostamente, um obstáculo à aprendizagem, fazemos contato com novas formas de apreender o mundo. Isso nos abre para pensar a própria concepção de ensino dentro da escola, que muitas vezes demanda a todos os alunos que aprendam da mesma forma e no mesmo tempo. Portanto, assinalamos a grande importância da escuta do outro para a construção de relações de ensino-aprendizagem mais plurais, afirmando a diferença como forma de estar no mundo.